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Criamos algo para acreditar ser superior e humanizamos a nossa crença.

Quem sabe ela traga esperança de que alguém à imagem e semelhança de mim não será capaz de errar.

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Depois de ter você, por quase um dia, perdi subitamente a vontade de me perder na Fradique Coutinho ou descer a Augusta para te encontrar no bar que não é o meu bar favorito.

Com o que será que você sonha depois de tirar a máscara?

Depois de perder você, por quase três dias, tive subitamente a vontade de ligar a TV para te encontrar ou descer a Consolação para ir ao meu teatro favorito sem você.

O que exatamente você perde quando diz odiar os lugares que frequento?

Depois de entender que sou filha do Sol e não pertenço a Lua, me vi mulher-peixe pedindo ajuda às entidades do tempo para descontar o dez gastos que me causaram suspiros ao vê-la cantar.

 

Você nunca passou um agosto da vida ao meu lado.

Não faz ideia que meu corpo quente treme de frio nas madrugadas de Fortaleza, e nessa época do ano até torço o nariz para chá gelado.

Você nunca soube compreender minha mania horrível de gastar a água do mundo, dizia, para manter as gotas d’água na superfície do corpo.

Não faz ideia que as tarde do mês oito acompanham um sol vermelho centralizado entre a Ponte Velha e a torre da Ponte dos Ingleses. E que a Dona Penha abençoa o meu mergulho entre os corais da Praia de Iracema, na tentativa de colocar algum juízo na minha cabeça.

Me considero no teu passado e não cito as horas trocadas. Me sinto longe de ti, longe de sentir saudade.
Matei.
Matei.
Matei tudo o que eu deveria ter matado.
É que fechei meus olhos por algum tempo, só vi meu futuro claro. O teu? Perdeu a luz depois que me deixou. Não estou sendo egocêntrico, só não te enxergo daqui. Estou distante? Não sei, só sei que te matei.

Não quero fazer sentido, não quero ser claro, como os outros.
Quero que me perceba em meio a multidão.
Tenho mutilado evidências do passado que tu esquartejou.
22:12
É que em mim tudo parece ser mais evidente. E pode ter certeza, eu me escondo.

Gosto de São Paulo com as janelas dos prédios acesas com a luz artificial, as sombras que a lua desenha entre a selva e você na sala de TV fumando o último cigarro do dia. Pensando em sei lá o que. Mesmo que no outro apareça com a promessa de ter lembrado muito dos nossos dias durante a semana, que sente falta de mim por aqui e ontem saiu com uma nova pessoa que eu adoraria conhecer. Vai ligar pro Fabrício e perguntar se ainda te amo.

Gosto de andar na Paulista no fim da tarde quando tenho a chance de encontrar você subindo a avenida, sem lembrar que eu existo e quase sem perceber que interrompe a dilatação do diafragma alheio com esse perfume tão forte.

Gosto de pensar que um dia vou passar o canal e encontrar seu rosto saindo do projetor que espelha para o vidro que enxergo. E um dia vai contar na roda do bar que eu te joguei para dentro daquela escola de teatro, por isso dedica os segundos finais de cada espetáculo para me procurar na platéia. Ansiosa pelo meu rosto naquele escuro.

Mas eu sei que foi uma maneira sútil de se arrepender por ter me pedido pra ficar.

E passei despercebido por lugar nenhum que você nunca existiu.

 

Mesmo sem saber cantar a música, você levou meu corpo inteiro para dançar em frente ao espelho que eu não tenho na parede do quarto que não é mais meu. São duas horas da madrugada e ainda não tenho nada sobre você. Que horas saiu, pra onde foi. Eu vi que a luz da janela do quarto não estava acesa e já são duas da madrugada.

Já é madrugada de abril e acabei de perceber que não temos nada. São duas da manhã e acabei de perceber que escrevo sentado no quarto que não é mais meu.

Você me ensinou a ter paciência e disse que aprendendo isso, me levaria a algum lugar. São duas da madrugada e eu continuo escrevendo para você, que não vai mais ler na cama que não é mais nossa.